IA nas empresas portuguesas: o principal desafio não é tecnológico

Jun 3, 2026 | Inteligência Artificial

Em 2025, apenas 11,5% das empresas portuguesas com dez ou mais pessoas ao serviço utilizavam tecnologias de Inteligência Artificial (IA), abaixo da média da União Europeia, situada nos 20,0%. O dado mais relevante, porém, não está na taxa de adoção, mas no principal motivo apontado pelas empresas que ainda não avançaram: falta capacidade interna para avaliar, decidir e integrar a tecnologia.

Portugal continua abaixo da média europeia

Em 2025, 11,5% das empresas portuguesas com dez ou mais pessoas ao serviço utilizavam tecnologias de Inteligência Artificial, mais 2,9 pontos percentuais do que em 2024. Na União Europeia, a percentagem atingia os 20,0%.

Os números mostram que a adoção de IA está a crescer, mas também revelam uma realidade desigual. A tecnologia avança a ritmos diferentes consoante a dimensão das organizações.

Nas empresas portuguesas com 250 ou mais pessoas ao serviço, 49,1% já utilizavam IA. Nas pequenas empresas, com 10 a 49 colaboradores, a percentagem ficava nos 9,4%.

A diferença observa-se igualmente à escala europeia: em 2025, 55,0% das grandes empresas utilizavam IA, contra apenas 17,0% das pequenas.

Mais do que um problema tecnológico, os dados sugerem uma questão de capacidade organizacional. Quanto menor a empresa, maior tende a ser a dificuldade em reunir competências, definir prioridades e estruturar processos de adoção.

O problema não é a ferramenta. É a capacidade de decidir.

Entre as empresas portuguesas que ainda não utilizam IA, 74,4% apontam a falta de conhecimentos adequados dentro da organização.

Os custos surgem a seguir, referidos por 60,4% das empresas. A falta de clareza legal é apontada por 57,3%, enquanto as preocupações com proteção de dados e privacidade surgem em 55,4% dos casos.

A leitura mais útil para gestores e líderes parece clara: antes de comprar ferramentas, as empresas precisam de saber que problemas querem resolver, quem deve decidir e como vão medir resultados.

Esta conclusão altera a sequência habitual de adoção. Muitas organizações começam por discutir fornecedores, licenças ou plataformas. Os dados apontam noutra direção. O primeiro passo deve ser desenvolver capacidade interna para avaliar oportunidades, riscos e prioridades.

A IA não é apenas uma decisão tecnológica. É uma decisão de gestão.

Escolher melhor antes de fazer mais

Implementar IA em todas as áreas ao mesmo tempo raramente é sinal de maturidade organizacional.

Pelo contrário, pode gerar dispersão, criar expectativas difíceis de cumprir e aumentar a resistência interna à mudança.

O caminho mais sustentável passa por identificar um ou dois processos concretos que justifiquem intervenção. Tarefas repetitivas, intensivas em informação ou com elevado custo de erro constituem frequentemente bons pontos de partida.

É o caso da análise documental, da preparação de relatórios, da triagem de informação, do apoio comercial, do atendimento ao cliente ou de processos administrativos.

A escolha destes casos de uso exige conhecimento do negócio. A tecnologia vem depois.

Quando a sequência se inverte, as empresas correm o risco de acumular ferramentas sem resolver problemas concretos ou gerar valor mensurável.

Governação: a pergunta que não pode ficar para o fim

À medida que a IA entra nos processos de trabalho, a questão deixa de ser apenas o que a tecnologia consegue fazer e passa a ser quem responde pelas suas decisões e resultados.

Antes de integrar sistemas de IA, importa definir responsabilidades.

Quem autoriza a utilização de ferramentas? Que dados podem ser utilizados? Quem valida os resultados produzidos? Como se asseguram a proteção de dados, a segurança da informação e a conformidade com o Regulamento da Inteligência Artificial? Que indicadores demonstram se o projeto gerou valor?

Sem estas regras, os projetos tornam-se dependentes de iniciativas isoladas. Podem começar rapidamente, mas dificilmente escalam com confiança.

A governação deixa de ser uma preocupação exclusiva das grandes organizações. Mesmo empresas de menor dimensão precisam de definir responsabilidades, critérios de utilização e mecanismos mínimos de supervisão.

O que isto significa para as PME

Para as PME, o desafio não é replicar o modelo das grandes empresas. É criar capacidade mínima de decisão.

Isso implica desenvolver literacia em IA junto da liderança e das equipas, identificar casos de uso relevantes, estabelecer regras claras de utilização, avaliar riscos e acompanhar resultados.

A vantagem competitiva não estará necessariamente em adotar primeiro, mas em adotar com critério.

Os dados de 2025 mostram um país em movimento, mas ainda marcado por diferenças significativas entre empresas de diferentes dimensões.

Portugal não está parado. Mas a adoção da IA continua demasiado dependente da escala das organizações.

O ponto de partida continua a ser organizacional: perceber quem está preparado para decidir sobre IA, quem precisa de formação e que problema concreto merece ser resolvido primeiro.

Os dados mostram que o principal bloqueio à adoção da IA nas empresas portuguesas não está na falta de tecnologia disponível, mas na capacidade de decidir como utilizá-la.

A diferença competitiva não estará apenas nas organizações que adotarem primeiro, mas naquelas que conseguirem ligar competências, governação e objetivos de negócio numa estratégia coerente de transformação.

Fontes:

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