A simplificação das regras europeias de sustentabilidade reduziu significativamente o número de empresas diretamente abrangidas pelas obrigações mais exigentes de reporte. Mas estar fora da CSRD não significa estar fora das exigências do mercado. Para muitas empresas, sobretudo PME, o desafio passa agora por conseguir responder de forma simples, credível e consistente.
Durante vários anos, muitas empresas europeias prepararam-se para um aumento significativo das exigências de reporte de sustentabilidade. A Diretiva sobre Relato de Sustentabilidade das Empresas (CSRD) alargava o universo de organizações obrigadas a reportar informação ambiental, social e de governação.
Em 2026, esse quadro foi revisto. Com a Diretiva (UE) 2026/470, a União Europeia simplificou o regime aplicável e reduziu substancialmente o número de empresas abrangidas pelas obrigações mais exigentes, concentrando o reporte obrigatório nas organizações de maior dimensão, designadamente nas que têm mais de 1.000 trabalhadores.
A Comissão Europeia estimou que esta alteração pudesse retirar do âmbito obrigatório entre 75% e 82% das empresas anteriormente abrangidas.
Para o tecido empresarial português, a consequência é relevante: menos empresas diretamente obrigadas a reportar, menores custos administrativos e maior proporcionalidade entre exigência regulatória e dimensão empresarial.
Mas menos empresas obrigadas a reportar não significa necessariamente menos empresas chamadas a prestar informação.
O ESG perdeu importância?
A pressão regulatória direta diminuiu. A exigência do mercado não desapareceu.
As grandes organizações que continuam abrangidas pelas regras europeias precisam de recolher informação sobre a sua cadeia de valor. Bancos, seguradoras, investidores, clientes internacionais e grupos multinacionais mantêm necessidades próprias de avaliação de risco, acesso a financiamento, contratação e reporte.
Uma PME que deixe de estar diretamente sujeita à CSRD pode, por isso, continuar a ser chamada a prestar informação sobre consumo energético, emissões, práticas laborais, fornecedores, políticas internas ou mecanismos de governação.
A razão é simples: clientes, bancos e parceiros precisam desses dados para avaliar as suas próprias relações comerciais, financeiras ou contratuais.
É nesta deslocação que está o ponto central para as empresas.
A pergunta deixa de ser apenas «Estamos abrangidos pela CSRD?» e passa também a ser «Conseguimos responder, de forma organizada e credível, aos pedidos de informação ESG que chegam de clientes, bancos ou parceiros?»
A diferença entre as duas perguntas é decisiva. A primeira pertence ao domínio estrito da conformidade legal. A segunda pertence ao domínio da competitividade.
Quando cada pedido começa do zero
Nas pequenas e médias empresas, o custo do ESG surge muitas vezes de forma dispersa.
Um cliente envia um questionário. Um banco pede informação adicional no âmbito de uma avaliação de crédito. Uma plataforma internacional exige dados antes de validar um fornecedor. Um grupo empresarial solicita evidência sobre práticas ambientais ou laborais.
Quando a informação não está organizada, cada pedido obriga a mobilizar diferentes áreas da empresa, procurar dados em ficheiros distintos, confirmar números, validar respostas e reconstruir informação que já tinha sido solicitada anteriormente, noutro formato e com outra urgência.
Nestes casos, o problema não está apenas na exigência externa. Está também na ausência de um sistema interno simples que permita responder-lhe.
Organizar informação ESG pode, por isso, ter valor mesmo quando a empresa não está sujeita a uma obrigação formal de reporte.
VSME: uma resposta proporcional para as PME
Foi precisamente para reduzir esta fragmentação que a Comissão Europeia adotou, em julho de 2025, uma recomendação sobre o Voluntary Sustainability Reporting Standard for SMEs (VSME), desenvolvido pela EFRAG.
O referencial voluntário foi concebido para apoiar empresas que não estão abrangidas pelo reporte obrigatório da CSRD, disponibilizando uma base comum de informação de sustentabilidade.
A sua utilidade está, sobretudo, na proporcionalidade: oferecer às PME uma estrutura organizada e reconhecível que possa apoiar a resposta a pedidos de informação provenientes de bancos, investidores, grandes clientes e outros parceiros de negócio.
O valor prático deste referencial está também na disciplina de gestão que pode introduzir.
Uma empresa que identifica os seus principais indicadores ambientais, sociais e de governação ganha capacidade de resposta perante terceiros, mas melhora igualmente o conhecimento sobre a sua própria operação.
Passa a saber onde consome mais energia, onde está mais exposta a determinados riscos, que informação laboral consegue demonstrar, que práticas aplica nas compras e que políticas internas existem efetivamente.
Essa informação pode ser relevante para concursos, financiamento, auditorias de clientes, processos de internacionalização ou negociação comercial.
O ESG deixa, assim, de ser tratado apenas como uma obrigação de reporte e passa a funcionar também como informação de gestão.
Menos discurso, mais capacidade de demonstrar
O entusiasmo inicial em torno do ESG produziu, em muitos casos, linguagem excessiva, compromissos vagos e uma distância perigosa entre discurso e prática.
A simplificação europeia pode ter um efeito positivo se ajudar as empresas a regressar ao essencial: dados fiáveis, objetivos proporcionais, responsabilidades internas claras e ligação efetiva à gestão.
Para a maioria das PME, não fará sentido começar por estruturas complexas ou relatórios extensos, mas por mapear os pedidos que já recebe, perceber que informação tem disponível, identificar lacunas e escolher um referencial simples que permita evitar respostas improvisadas.
A sustentabilidade empresarial entra, assim, numa fase mais operacional.
Para as empresas portuguesas, a questão central passa por compreender o que esta mudança significa na relação com clientes, financiadores e cadeias de fornecimento.
A simplificação regulatória reduz encargos formais, mas não elimina a necessidade de informação credível.
Num mercado em que empresas são cada vez mais chamadas a demonstrar práticas, riscos e dados perante terceiros, estar fora do âmbito obrigatório não significa estar fora da conversa.
Para aplicar na empresa
- Mapear os pedidos recebidos: identificar que informação ESG foi solicitada por clientes, bancos, investidores, plataformas ou parceiros nos últimos 12 meses.
- Perceber o que já existe: localizar os dados disponíveis, os responsáveis pela sua produção e os respetivos formatos.
- Identificar lacunas: perceber que informação é pedida repetidamente e continua a exigir recolha ou validação de raiz.
- Definir responsabilidades: estabelecer quem recolhe, valida, atualiza e autoriza a utilização da informação.
- Avaliar um referencial comum: perceber se o VSME pode ajudar a organizar os dados de forma proporcional às necessidades da empresa.
- Criar uma base reutilizável: evitar reconstruir a informação sempre que surge um novo questionário ou pedido externo.
A pergunta que interessa fazer
Se um cliente estratégico, um banco ou um parceiro internacional pedisse amanhã informação ESG estruturada, a empresa conseguiria responder com segurança, rapidez e consistência?
A resposta a esta pergunta mostra melhor do que qualquer declaração de intenção o grau de preparação da organização.
Depois de uma primeira fase marcada pelo entusiasmo, pelas metas e pelo crescimento das exigências regulatórias, a sustentabilidade entra agora numa etapa mais pragmática.
Menos empresas terão de reportar. Isso não significa que menos empresas terão de saber responder.
O trabalho menos visível passa por transformar dados dispersos em informação de gestão — útil para decidir, demonstrar, negociar e competir.
